COVID-19 na criança: o que sabemos até agora

COVID-19 na criança: o que sabemos até agora

Oi flor do dia, tudo bem com você? 

No Brasil, o retorno das aulas presenciais durante a pandemia de COVID-19 tem gerado inúmeras discussões com relação aos cuidados com as crianças e os riscos de infecção. Além disso, o papel das crianças na transmissão do coronavírus também aumenta as preocupações sobre as melhores medidas a serem tomadas. 

O que motivou o início da discussão foi a constatação de que, aparentemente, o COVID-19 afeta as crianças com menos gravidade do que os adultos, mas meu espírito de pesquisadora resolveu ir a fundo nessa informação e fui conferir o que os estudos concluíram sobre esse assunto.

A primeira coisa que fazemos, quando lemos um artigo científico, é avaliar criticamente a qualidade metodológica dele porque nem todo artigo científico publicado é confiável, infelizmente. Existem alguns tipos de estudo que fazem isso, se chamam revisões sistemáticas e metanálises. Uma revisão sistemática recente, publicada em 2021 sobre COVID-19 em crianças avaliou mais de 1900 trabalhos sobre o tema e de todos esses, apenas 48 tinham metodologia adequada para serem considerados dentro da revisão. Isso significa que, mesmo que tenhamos um volume de estudos sobre o assunto, quando filtramos para o que realmente vale, ainda temos muito o que caminhar. 

Com todos estudos em mãos, eu elegi três perguntas cujas respostas, ao meu ver, são urgentes quando falamos de COVID-19 em crianças: 

  1. As crianças se infectam menos e com menor gravidade?

Preciso contar de cara uma dificuldade que encontrei na minha busca: uma grande discrepância entre o que cada pesquisador ou sociedade considera como criança. Uma única busca em uma base de dados de artigos científicos com os termos, em inglês, “criança” e “COVID-19” apresentou mais de mil resultados de estudos com indivíduos que variavam de 0 a 5, 10, 14 e até 20 anos de idade.

Mas, mesmo diante dessa diferença nas faixas etárias dos estudos e relatórios, uma coisa ficou muito clara: de fato, a infecção por COVID-19 é relatada com muito menos frequência em crianças do que em adultos. Segundo um relatório publicado pela Organização Mundial da Saúde em outubro de 2020, crianças e adolescentes representam cerca de 8% dos casos notificados.

Além disso, os estudos mostram que as crianças também apresentam sintomas, mas evoluem com menor gravidade. A taxa de internação e mortalidade por consequência da COVID-19 em crianças varia de 0 a 5% do total de casas. 

E, vejam vocês, a ciência é tão maravilhosa que já encontrou uma resposta para essa reação atenuada das crianças:  o sistema imunológico das crianças parece mais bem equipado para eliminar o SARS-CoV-2 (nome científico do coronavírus que causa a COVID-19) do que o dos adultos.

Uma única partícula do SARS-CoV-2 é capaz de fazer até 100.000 cópias de si mesma em apenas 24 horas. O sistema imunológico das crianças vê o vírus e monta uma resposta imunológica rápida e eficaz que o desliga antes que ele tenha a chance de se replicar, ou seja, neutraliza o vírus e protege contra o início da infecção. 

É improvável que essa seja a única explicação para o motivo pelo qual COVID-19 parece afetar menos as crianças do que os adultos, mas é uma descoberta importante!

  1. Qual o papel das crianças na transmissão do vírus?

Vou começar respondendo essa pergunta com um estudo que me intrigou. Publicado em uma das revistas médicas mais conceituadas do mundo, a Nature, esse estudo mostrou inclusive que algumas crianças desenvolvem sintomas de COVID-19 e anticorpos específicos para o vírus, mas nunca apresentam resultado positivo em um teste padrão de PCR (aquele do cotonete). 

Por que essa informação é importante? Porque ela nos mostra que não conseguimos nem saber se essas crianças estão de fato infectadas (isso pode explicar, inclusive, o número baixo de casos em crianças em todas as estatísticas que citei acima), que dirá se elas estão transmitindo. 

O que os estudos mostram, no geral, é que o papel das crianças na transmissão do vírus ainda não está bem compreendido. Alguns pesquisadores viram que crianças de todas as idades podem ser infectadas e espalhar o vírus, mas outros viram que a disseminação entre crianças menores de 10 anos é menor do que em crianças mais velhas. 

Até termos estudos com resultados mais contundentes e considerando o fato de que crianças pequenas são menos propensas a usar máscaras de forma consistente, manter boa higiene das mãos e evitar tocar a boca ou nariz, precisamos partir do princípio de que as crianças sejam capazes de transmitir o vírus a outras pessoas. 

  1. Sabemos as possíveis consequências da COVID nas crianças?

Na semana passada eu publiquei aqui um texto explicando sobre a Síndrome de Kawasaki, uma síndrome inflamatória multissistêmica, cujo diagnóstico teve um aumento nos últimos meses em crianças que tiveram contato com o coronavírus. A Síndrome de Kawasaki evolui pouco para a forma grave também e grande parte das crianças se recuperaram sem sequelas.

Além disso, vi um estudo que confirmou um dos meus maiores medos: a consequência neurológica da COVID. Desde o início da pandemia eu vinha conversando com pessoas próximas que, ao meu ver, uma doença que tem a capacidade de tirar o paladar, mexe de alguma forma em nosso sistema neurológico para conseguir essa façanha, e que eu tinha medo do que isso pode significar no longo prazo.

A resposta para o longo prazo nós só teremos daqui alguns anos mesmo. Mas esse estudo é uma revisão de vários outros estudos, com adultos e crianças, que relataram uma associação entre a COVID-19 e o surgimento de sintomas neurológicos que variaram de dor de cabeça e ausência do paladar a manifestações mais graves como acidente vascular cerebral, convulsões e encefalopatia. 

Esse é um estudo de revisão que compilou estudos que podem ter algumas limitações na metodologia que devem ser considerados, mas a mensagem que eu quero trazer, que inclusive está na conclusão desse estudo, é a de que o impacto neurológico da COVID-19 a longo prazo merece investigação adicional. 

Essa conclusão, inclusive, serve para o todo. É um vírus novo e sabemos muito pouco sobre ele. Cada novo estudo é uma nova descoberta e mais uma pecinha nesse quebra-cabeça que vai demorar alguns anos até se completar. Além disso, o vírus sofreu uma mutação que, aparentemente, tornou o vírus mais agressivo. O pouco que sabemos sobre o SARS-CoV-2 pode mudar completamente quando falamos da nossa variante. 

Por isso, até termos mais certeza de suas reais consequências e de como tratá-lo adequadamente e até termos a população toda vacinada com eficiência, precisamos fazer o que estiver ao nosso alcance para prevenir. O isolamento social, uso correto de máscara e higienização das mãos ainda são as maneiras mais eficientes de evitar a transmissão do vírus e garantir que o menor número de pessoas conheçam na prática quais serão essas consequências ainda desconhecidas. 

Até jaja! 

REFERÊNCIAS


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